Geração de Renda22.12.11

Os desafios da gestão de negócios sociais

Em 1º de dezembro, o Instituto Walmart, em parceria com a Ashoka, fechou o ciclo de quatro encontros do Mapa de Soluções Inovadoras – Tendências de empreendedores na construção de negócios sociais e inclusivos, realizados em São Paulo (SP) em 2011. Desta vez, foram debatidas questões relacionadas à gestão desses empreendimentos, que têm o desafio de aliar a geração de lucro e o impacto social positivo. 

Marco regulatório

Uma das dificuldades enfrentadas na gestão dos negócios sociais é a sua própria constituição legal. “Não existe uma tipificação jurídica de negócios sociais no Brasil”, afirmou a sócia do escritório de advocacia Mattos Filho, Flávia Souza. Ela e sua colega Juliana Furini escreveram um artigo sobre o tema para servir de base teórica ao debate (leia).

Advogadas Flávia Souza (esq.) e Juliana Furini

Para enriquecer a discussão, três convidados analisaram a questão da formalização. Para o gerente nacional de Desenvolvimento Territorial do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) André Spínola, a lei complementar 128/08, que criou a figura jurídica do empreendedor individual, permite a formalização e garante  benefícios como  a segurança da previdência social, a contribuição para o Instituto Nacional do Seguro Nacional (INSS) e a facilidade de comprovação de renda para a tomada de crédito. Segundo ele, essa lei levou a um crescimento significativo na formalização de negócios, mas trouxe também o desafio da inadimplência.

As duas outras debatedoras, Caroline Appel, com experiência na orientação de grupos como coordenadora de Metodologia da Aliança Empreendedora, e Leila Novak, idealizadora da Rede Papel Solidário, lembraram que há entraves relacionados à formação educacional dos empreendedores. “Eles podem não ter um fluxo de caixa constante e chegar ao final do mês sem o dinheiro para pagar os encargos da formalização”, diz Caroline. Ela reforça, ainda, a visão das advogadas de que existe um processo pelo qual o empreendedor passa até chegar à formalização.

Mapeamento dos negócios sociais e inclusivos

A assessora estratégica da Potencia Ventures, Viviane Naigeborin e o representante da Fundação Avina no Brasil Valdemar de Oliveira Neto (conhecido como Maneto) apresentaram em primeira mão o Mapeamento do Campo de Negócios Sociais e Inclusivos, durante o 4º Mapa de Soluções Inovadoras.

Viviane Naigeborin, assessora estratégica da Potencia Ventures

 O levantamento, realizado pelo Plano CDE e coordenado por Avina, Potencia Ventures e Polo ANDE Brasil, abordou não apenas a atuação dos negócios sociais e inclusivos, mas também dos agentes desenvolvedores desses empreendimentos e dos seus investidores. A apresentação dos resultados contribuiu para o conhecimento do tema e mostrou que é preciso haver um cenário propício para a evolução dos negócios sociais.

 

“Constatamos que os agentes desenvolvedores não têm provocado muitas inovações. Em relação aos investidores ainda não sabemos quais mecanismos de investimento vão funcionar com os negócios sociais. Estamos em período de experimentação”, afirmou Viviane.

Sobre os 50 micro e pequenos empreendimentos sociais analisados – entre 140 identificados no País – 64% não dependem de doações.  Metade destes, inclusive, já opera em várias regiões,  e 28% têm abrangência internacional. Além disso, o público beneficiado pela atuação das empresas analisadas é formado por pessoas que pertencem às faixas de renda mais baixas – o que demonstra que estão conseguindo gerar lucro e impacto social.
Para isso, dois terços dos entrevistados declararam ter desenvolvido seu modelo de negócio por conta própria. O restante afirmou ter obtido apoio principalmente de universidades ou se inspirado em modelos internacionais.

Modelos de gestão
 “Ainda não consegui encontrar uma organização social que não se encaixasse em um modelo de gestão de empresa que já existe”, comentou o diretor geral da Estruturadora Brasileira de Projetos (EBP), Helcio Tokeshi. “Deveríamos parar de fazer a distinção entre negócios tradicionais e sociais. Existem milhares de modelos organizacionais. São formas diferentes de nos organizarmos coletivamente para realizar algo.”

Para Maneto, os principais desafios não estão na identificação e desenvolvimento de modelos de gestão, pois nesse campo há bastante referência de casos de sucesso. “Competências como capacidade de escutar, falar de um problema, atuar em um espaço coletivo não estão sendo suficientemente trabalhadas. Muitos grupos produtivos terminam quando crescem e aumentam os conflitos”, deduz.

Valdemar de Oliveira Neto (conhecido como Maneto)

 Ele também aponta para a necessidade de se criarem mecanismos de apoio à gestão dos negócios de grupos produtivos e a qualificação técnica desses grupos para que ganhem escala.

Comentários

Comente
* Campos de preenchimento obrigatório

Cadastre-se